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toda flor se abre em seu tempo certo

por Erica de Carvalho

Inovação aberta, co-criação, modelo de negócios líquido. Se há alguns anos alguém viesse falando estes termos eu responderia: “what???” Nem imaginava que hoje eu estaria aqui, empreendendo e trabalhando de um jeito completamente novo – mais conectado, ágil, livre, sustentável, próximo, compartilhado e alinhado com a Nova Economia.

Sempre fui uma criança cheia de energia e interesses diversos. Desde bem pequena alternava momentos de profunda introspeção, como quando estava estudando piano sozinha ou criando minhas artes e recortes no chão de casa, com situações onde a energia não cabia em mim e eu ia logo jogar queimada na rua com minhas irmãs e amigos, fazer aulas de jazz (ê, década de 80…) ou brincar de teatro no jardim. Achava que ia me entediar fazendo uma única faculdade, então alternei o estudo de Propaganda e Marketing na ESPM com aulas de Artes Plásticas na USP. Isso até entrar no mercado das agências de propaganda de São Paulo, quando qualquer iminência de tédio evaporou por completo.

E aí se passaram vários anos de alegrias profissionais, muito trabalho (incluindo noites e finais de semana virados em concorrências e campanhas sem prazo), e contato com pessoas que me fizeram aprender muita coisa, algumas delas que tenho a sorte de ter em minha vida até hoje.

Passagem para a Índia

Em 2009 tirei um semestre sabático e fui morar na Índia. Já tinha me apaixonado pelo yoga e pela meditação. Decidi então experimentar me ver em um ambiente completamente diferente, imersa em uma cultura milenar, trocando a jornada de trabalho em ambiente fechado, com ar condicionado, por algo mais amplo. Escolhi ser voluntária em um ashram (espécie de monastério) no Sul da Índia. Estava disposta a fazer tudo que me colocasse em contato com o novo e me tornasse um ser humano melhor: lavar o chão, descascar cebolas… Mas no segundo dia fazendo seva (trabalho voluntário) na lavanderia, escovando golas, punhos e outras partes de roupas encardidas, descobrem que eu sou diretora de arte... E lá vou eu de novo pra salinha com ar condicionado. Estava decidida a dar uma domada mais forte no ego, e achava que pra isso tinha que buscar fazer trabalhos que envolvessem menos o intelecto, mas naquele momento eles precisavam muito de profissionais de design gráfico que integrassem uma equipe para trabalhar nos projetos desenvolvidos ali. Estava no ashram da mestra espiritual e humanitária Amma, em Amritapuri, reconhecida pela ONU como sede de uma das maiores obras humanitárias do planeta.

Tudo isso aconteceu bem no começo da viagem e de repente me vi trabalhando de 3 a 4 horas por dia com um time de pessoas superantenadas. Foi uma espécie de reciclagem profissional com gente que vinha do mundo todo e com os indianos – super à frente em tecnologias e uso de haptics. Passei por desafios curiosos, como ter que escolher tipografias para os layouts no alfabeto malaialo (que mais se parece com um conjunto de desenhos encaracolados do que letras), e aprender a fazer ilustrações para animações, usadas em treinamentos, utilizando os tais haptics (tecnologia para retorno tátil/sensitivo de comandos, aplicada, naquele caso, para cursos de ensino profissionalizante). Mas o melhor mesmo foi compreender o quanto o meu trabalho está ligado à minha evolução como um todo, inclusive espiritual.

Naquela época também surgiram oportunidades de trabalhos remotos feitos diretamente com uma agência de Endomarketing superlegal aqui do Brasil (eu era a unidade “Hare Baba” do grupo de comunicação deles): enquanto eu trabalhava nos projetos pra empresas como Unilever e Kimberly Clark, meus clientes dormiam do outro lado do mundo, e vice versa.

No restante do tempo me dedicava a investigar mais sobre minha natureza, praticar yoga, meditação, nadar na piscina do ashram, estudar sânscrito e música indiana. Foi uma fase bem feliz e de muitas descobertas, principalmente porque ao tirar o trânsito e caos de São Paulo, a pressão dos chefes e a poluição do ar, pude perceber que o caos, a pressão, a poluição, tudo isso tá muito mais dentro do que fora. Mesmo em meio ao maior paraíso tropical e espiritual desse planeta, eu tinha meus dias com a pá virada.

Hora de voltar

De volta à Matrix, lá vou eu de novo encarar o dia a dia de São Paulo, coordenando o departamento de criação de uma agência de publicidade juntamente com minha dupla. Naquele momento, de retorno da imersão na Índia, foi bom me sentir segura e acolhida, enraizada em uma agência na qual passei a ser sócia. Em algum tempo, porém, veio um certo desconforto. A experiência de trabalhar viajando, conectada a pessoas de diferentes partes do mundo, misturando em um mesmo dia atividades de lazer, estudo e contemplação, tinha acabado por semear uma vontade de mudança que não passou mais.

Sou muito grata a todo o período que passei trabalhando no mercado publicitário. Foram quase 18 anos de incontáveis jobs com muita gente que teve a maior paciência comigo. Sem esses anos talvez eu não tivesse desenvolvido a disciplina pra trabalhar da forma que trabalho hoje, a segurança suficiente pra lidar diretamente com meus clientes e a confiança que tenho na rede que construí com meus parceiros de trabalho. 

Acredito muito que cada coisa tem seu tempo certo para acontecer: é como uma flor, que não se força a abrir. Também acredito que cada pessoa é um universo, com suas regrinhas de funcionamento únicas, e seu caminho igualmente único a trilhar. Mais do que reproduzir caminhos alheios, cabe a cada um descobrir a trilha que traz mais vida, alegria e conduza a algum tipo de despertar. Exercitar aquilo que nos amplia mentes e corações nos torna mais humanos, porque é parte de nossa natureza evoluir.

Não sei por quanto tempo a semente da vida profissional que tenho hoje ficou embaixo da terra, aguardando o  momento certo de germinar. Pode ter sido desde 2009, pode ter sido muito antes disso. Assim como uma semente tem seu momento de romper a casca, sair daquele modelo de trabalho foi uma ruptura, com suas doses de sofrimento, despedida e desapego. Tive que deixar de lado os vários anos de convívio diário com minha dupla de criação, os “bom dias” dos colegas de trabalho, o cargo… tudo isso foi meio que como acabar um casamento – que durante muito tempo trouxe uma felicidade imensa, mas que em um dado momento passou a não fazer mais sentido.

Passada a fase de frio na barriga, com meses de “salário” mais baixo, caí completamente de amores pela nova fase: liberdade criativa, liberdade para aprender coisas novas, liberdade de horários, liberdade de trabalhar de qualquer lugar do mundo (só nesta nova etapa pude experimentar desenvolver trabalhos direto de Tóquio, Genebra, Paris, Dubai, Las Vegas, San Francisco... e também da casa da minha família em Rio Preto, no interior de São Paulo, entre um almoço na casa da vó e um passeio na pracinha com os sobrinhos). E assim, com muita liberdade, fui também planejando como ampliar minha conexão com o mercado de clientes e parceiros de trabalho.

Fui colher no oriente a inspiração para o nome de meu estúdio de criação: “Flor de Lótus” – símbolo da transformação da matéria em criação, aquela que nasce em águas escuras para abrir-se ao céu em pétalas delicadas e precisas. Essa flor que nasceu é minha homenagem ao sol, à vida, ao amor pelo trabalho.

Hoje, quando não estou nos clientes ou em reuniões no espaço do estúdio, bem perto aqui de casa, trabalho a maior parte do tempo rodeada por meu piano e meu cantinho de meditação. Conectada a uma rede de parceiros de trabalho que resolveram fazer o mesmo: trocar o ambiente corporativo tradicional e criar seus próprios espaços de trabalho. Conectada com meus clientes, que hoje são principalmente ligados à área da saúde, turismo, arte, ensino e ao universo do yoga, ayurveda e meditação. E o melhor de tudo: muito mais conectada com o coração.

 

Erica de Carvalho, 37, é formada em Propaganda e Marketing pela ESPM (turma de 1999). Desde muito cedo descobriu sua paixão pelas artes e comunicação em geral.  Trabalhou em diversas agências de propaganda de São Paulo desenvolvendo projetos de identidade de marca, campanhas publicitárias, ações promocionais e eventos. Hoje se dedica em tempo integral às criações do Estúdio Flor de Lótus, a viajar pelo mundo, praticar yoga, meditar e ser feliz. Seu projeto futuro de criação (o mais ousado de todos até agora) é, junto com seu parceiro de trabalho/marido/amor da vida, criar uma nova vida, mas aí já é outra história.

Para conhecer mais:

www.facebook.com/criacaoflordelotus

www.estudioflordelotus.com.br­

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